Este artigo apresenta uma leitura crítica da nova obra de Hans Kelsen, Secular Religion, finalizada em 1964, mas lançada somente em 2012. O texto se inicia com uma reflexão acerca da atualidade do problema relativo às ligações entre
ciência, política e religião na Modernidade, examina as principais teses de Secular Religion, apontando seus pontos fortes e fracos, e conclui com um balanço geral da posição de Kelsen sobre a nascente “teologia política”. Em síntese, Kelsen pretende demonstrar o caráter falacioso e conservador da postura assumida por vários intelectuais – Voegelin, Löwith, Toynbee, Gilson, Schmitt, Heidegger, etc – que veem elementos religiosos nas estruturas fundamentais da Modernidade, quais sejam: a filosofia, a ciência e a política. Segundo Kelsen, tal identificação é não apenas falsa, mas também perigosa, dado que qualificar o projeto laico e democrático da Modernidade como uma espécie de religião herética pode levar à teologização do pensamento característica de sistemas políticos totalitários.